segunda-feira, março 08, 2010
Uma tarde livre
Mas naquela tarde de ócio, como há muito tempo não se via. Ela leu umas páginas do livro que está quase no fim; viu uns trechos de uns filmes, daqueles que sacodem as estruturas do senso comum; chorou ao ler alguns textos na net e se emocionou assim de graça. Quer dizer, esse é um mistério não desvendado: esse andar à flor da pele que ela não sabe se tem haver com as oscilações hormonais, com algum transtorno psíquico/comportamental, se tem alguma relação com suas (possiveis) vidas passadas, se faz parte de sua personalidade ou... de fato, um mistério. Mas ela chorava por dentro quase que diariamente. Ela era feliz. Extremamente feliz. Mas tinha tanta coisa errada no mundo, que esse choro fazia parte de sua própria existência. Chorava pela injustiça e pela justiça; pela força de mudança das pessoas e pela entrega quando a força faltava; chorava pelo bonito e pelo feio; pelo bom e pelo mau; pelo certo e pelo errado. Mas pouca gente via. Era choro de alma. Choro de entendimento e de revolta. Mas era só olhar atentivamente que tudo estava exposto. Ela era transparente.
E nessa tarde livre, ela se entregou aos seus maiores prazeres: ler, pensar e escrever. Ah se ela pudesse ganhar a vida assim...
domingo, janeiro 31, 2010
O desespero no metrô
Como se de si nada mais restasse
Apenas um corpo gritando o irremediável.
De nada lhe serviam a lógica e a razão
Que por certo fariam-na parar.
Como parar quando nada existe adiante?
Quando a dor dilacera o corpo são
Sem nenum vestígio de injúria?
Quando a esperança já se foi por completo?
E assim, sua voz em gritos, alcançava tudo e todos
Suplicando um remédio, um auxílio, um milagre.
Mas se nem os anjos a ouviam
O que poderiam fazer os pobres mortais?
Aos poucos, seu corpo se rendeu ao seu vazio
O vazio de uma morada abandonada
O vazio da ausência dos sentimentos e sutilidades
O vazio de um corpo sem alma.
E os gritos se tornaram escassos.
Os gemidos, abafados pelo silêncio alheio.
Do que restou, mal se destinguiam os trapos, do ser.
E o rosto banhado em lágrimas pendeu, inerte
Sobre o chão que se tornou sua eterna morada.
terça-feira, agosto 11, 2009
Hoje o mar ouve
Tirou a roupa e entrou na água. Sentiu seu corpo ser lentamente tragado. Com a sutileza que nenhuma lagoa nunca alcançaria. E foi como se novamente tivesse voltado ao ventre de sua mãe-Terra.
Olhou para o céu e em vez de uma, a lua fez-se quatro. Uma cheia, uma nova, uma crescendo e outra sumindo, assim, todas alinhadas: na direção do topo de sua cabeça, a primeira, até quase se perder no mar, a quarta. Fechou os olhos e os abriu rapidamente, com a impressão de que isso poderia a fazer enxergar normalmente outra vez. E mais uma vez. E uma última. Em vão. As luas brilhavam amarelas no céu já quase azul claro. Nessa manhã, o sol perdeu a hora de nascer. Ou pacientemente aguardava um último sinal.
Seu olhos encheram de lágrimas e no mesmo instante, o céu se fez repleto de estrelas. Tantas estrelas como nunca antes nenhum olho, de nenhuma época, havia visto. Estrelas tão pequeninas, de brilho tão delicado, que pareciam piscar lá no fundo do universo. E não mais que de repente, essas pequenas estrelas começaram, uma por uma, a vir em sua direção. Sem pressa, pequeninas e luminosas. Deixando um pequeno rastro de poeira de luz. E a cada estrela que descia, outra aparecia no céu. Seu choro não se conteve mais quando poucas delas, feito purpurina, se misturaram na sua pele e ao seu redor, no mar.
Seu soluço ecoou em cada concha. Suas lágrimas, tantas, se tranformaram em enormes ondas que logo em seguida se desfaziam nas pedras da areia. E seu peito expandiu tanto e de tal forma que seu grito fez silenciar o mar. O sol nascia no horizonte, pincelando o céu delicadamente com rajadas de luz vermelha-laranja-amarela. O novo dia, enfim raiava.
Isso foi há muito tempo. Há tanto tempo quanto é possível o primeiro homem lembrar. Num tempo onde o mar falava. E hoje ele cala. Hoje ele ouve o eterno grito de libertação de uma alma que se desacorrentou de seu corpo e hoje canta as mais belas canções de ninar, junto com o vento, na beira de todo mar.
domingo, maio 17, 2009
Uma noite, uma espera, vagas lembranças...
Quando te amei
Foi como se não existisse nada além
Nem no tempo nem no espaço
Todas as nuvens se borravam céu afora
E eu sem poder sequer te dar uma flor.
O fogo desgastava cada instante de espera
O vinho já havia se ido
O jantar à luz de velas também
Até o sorvete de chocolate com pedaços de infinito
Tudo pertencia agora às lembranças.
Tudo fazia esperar
Cada instante, um suspiro
À qualquer momento a porta poderia se abrir
E eu te amava em cada fração de tempo
Com vontade de seu riso e de seu abraço
Lágrimas que transbordavam o peito
E estagnavam antes de alcançar o mundo
Nunca saberei ao certo
Se alegria ou tristeza
Sentimentos tão instrínsecos um no outro
Dançando e se enroscando e se enovelando.
Sua ausência preenchia suavemente o quarto
Tão delicadamente...
Me aconchegava entre as colchas e travesseiros
Me embrenhava nos cheiros e me perdia por inteiro.
O violino me fazendo quase chorar...
Tudo estava no seu devido lugar
A ausência no momento devido
Seus passos a te pertencerem e só.
Me sentia tão inteira
Que quase me preenchi por completo
Pequenas gotas de orvalho perdidas para todo o sempre
Isso é talvez o que vá sempre me faltar.
Mas nada mais importava disso tudo
As rosas falavam silenciosamente comigo
E meu peito aguardava seu retorno.
Você viria.
Mesmo com horas de atraso.
A porta se abriria antes do sono chegar.
E a madrugada já se estedia noite afora
E eu me esticava cama adentro.
quarta-feira, maio 06, 2009
Clap, clap, clap
Clap, clap, clap
Os dedos acompanham o ritmo
O corpo balança de lá pra cá
A música ecoa pelo meu quarto.
Cama ainda desfeita,
Pratos na pia,
Pagamento do aluguel por fazer,
Calcinhas para lavar,
Almoço ainda no estágio de planejamento
Alguns pedaços de laranja ao alcance da mão.
Já passam das 13:30 de uma dessas quartas
Onde acordei cedo e voltei a dormir
Despertador tocou novamente ao meio-dia
Hora das pílulas
Hora de abrir as cortinas
E me conectar com o mundo.
Ligações perdidas no celular,
Emails por ler.
Nada me tira do embalo desse jazz...
Clap, clap, clap
Os dedos acompanham o ritmo
O corpo balança de lá pra cá.
A vida acontece em paralelo à tudo isso
Os gerânios continuam a florir na minha janela
A pessoas passam na rua,
Correm para pegar o próximo busu
As crianças brincam incansavelmente no parque
Os bancos, os jornais, a bolsa de valores
O dia já está na metade para eles
Pra mim, ele apenas começou.
Meu corpo espreguiça lentamente
Alcanço uma nuvem com cada ponta de meus dedos
Alcanço o infinito balançando de lá pra cá.
Clap, clap, clap
Os dedos acompanham o ritmo
Pés para frente e para trás
Feito gato, meu corpo acompanha o embalo do jazz
E nada me abala hoje.
quinta-feira, abril 16, 2009
A saga de um amor
quarta-feira, abril 08, 2009
Saudade boa de viver
Lá onde fica a caixinha de lembranças
Bem no fundo da memória.
Lá do outro lado
Onde o vento faz a curva
E o céu encontra o mar
Onde pensamentos se perdem
E me levam junto
Me levam além
Me levam a reviver tudo que fui
Cada momento
Cada risada
Cada perdão
E com o peito cheio de saudade
Daquela boa de se reviver sempre
Uma lágrima brota de meu olho
E eu agradeço aos céus.
quarta-feira, abril 01, 2009
Poesia retirada do baú
O mundo parece tão pequeno pros meus sonhos que acho que terei que reinventá-lo. Um pouco mais de areia aqui, umas montanhas acolá, uns coqueiros e bananeiras ali adiante... Oh que belezura... O sol e lua dançando paralelos por 12 horas ininterruptas de amor.
Mas que ao som do silêncio da noite, ao embalo morno do vinho gelado, à destreza quase perdida dos dedos sobre as letras, cá estou eu. E estou em todo lugar. Cada fração de segundo é tempo sufuciente pra eu ir e vir, dar cambalhotas e sair gargalhando por ai...
Se de mim sobrar sombra pra contar a história, com certeza ela se encaixara no: "Era uma vez... e viveu feliz para sempre"
domingo, março 22, 2009
Bússola
No meio de fios e tecnologias
Microfone, computador e webcam
Eu me encontrava exatamente a Sudoeste.
Pela primeira vez me localizei
Pela primeira vez percebi em que lugar estava no mundo.
Assim do nada
Como num passe de mágica
No meio de lembraças de risadas
A exatidão chegou a mim.
E precisamente eu soube
Estar no caminho certo
No de fora e no de dentro
(que no fundo não passam de um só)
E a bússula de 17 anos atrás
De repende me disse que SIM!, era Nordeste.
E eu não tive dúvida alguma
Que enfim ela me guiaria nos próximos caminhos.
sábado, fevereiro 28, 2009
Dentre tudo de tudo
De todos os assuntos e sensações
Dentre tantas descobertas
Tantas alegrias e ponderações
Dentre tudo o que foi dito
E tudo o que ainda não foi dito entre nós
Está essa nítida impressão
Que mais beira uma certeza propriamente dita
Que te ter em minha vida
Vai muito além.
Além de todo o perceptível aos seis sentidos
Ultrapassa toda a teia cognitiva
Se funde com o irracional.
E assim, sem explicar,
Fica tudo tão claro, tão encaixado
Que, deliciosamente, a simetria de nossas vidas
Vai se acomodando e se remodelando
Na unidade de nossas almas.
quinta-feira, fevereiro 19, 2009
Prosa em poesia
Não há muito o que fazer
quando o verde se abre e sua alma adentra a minha
a não ser me entregar.
E assim é. Deliciosamente.
A cada dia.
E até de olhos fechados e a muitas milhas away,
sua alma me visita,
me pega pela mão
e me guia por aí.
sexta-feira, fevereiro 13, 2009
Dia após dia
Chove, chove, chove.
Não entendo como no céu pode ter tanta água.
Dia após dia
Incessantemente.
Aqui o céu é cinza
E as pessoas correm.
Não entendo para quê tanta pressa.
Dia após dia
Incessantemente.
Aqui tem carros. Muitos.
E eles fazem barulho.
Não entendo o porquê de tanta buzina.
Dia após dia
Incessantemente.
Aqui tem muita loja.
E as pessoas compram muito.
Não entendo porque tentam preencher os vazios da alma com coisas.
Dia após dia
Incessantemente.
Aqui dentro nada disso faz sentido.
E isso já tem tempo.
Agora entendo que rumo dar a minha vida.
Dia após dia
Incessantemente.
segunda-feira, fevereiro 09, 2009
Enquanto fazemos planos
Aquela sensação de que o dia vai chegar
Mais cedo que mais tarde
Mais perto que nunca
Ainda que o tempo teime em passar normalmente
A despeito dessa minha ansiedade
A despeito dos tantos planos
A despeito de tanta vida que está por vir
Ainda que ele teime, ele está por chegar
Fecho os olhos e me concentro
Naquilo que um dia me disseram:
"A vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos"
Acredito piamente
e por isso torço para que o tempo passe logo
E eu possa tornar isso minha realidade
sexta-feira, janeiro 09, 2009
Um minuto de silêncio
Entre um vôo e uma viagem de onibus
Entre nuvens e montanhas
Entre o lá e o cá
Cá estou eu
No aqui, no agora
no centro de mim
onde não haverá nada além da respiração
nada além da conexao comigo
vim longe pra me achar
se tivesse vindo a pé,
o caminho seria infinito.
Resolvi encurtar as distancias fisicas,
ja que a caminhada para dentro será longa
alguns dias apenas
se estenderão no infinito de minha alma
e de meus anseios
um minuto de silêncio, por favor.
sábado, dezembro 20, 2008
Um novo começo
E às vezes me perco tanto
No emaranhado de minha alma...
Está tudo aqui dentro,
Eu sempre soube...
Talvez meu destino seja desembolar o fio de minha vida
Que a cada momento se mostra para mim.
Eu apenas reconheço o que sempre esteve inside...
And for a moment
The words start to leave my thoughts
And everything becomes clear
My mind is clear
My heart is clear
My soul is clear.
I can't live my life lying to myself anymore
I can't let all this fake reality touch me inside anymore
Everything becomes so confused when it happens...
How it come?
How it come?
My whole life searching for somethings that's inside
That simple...
Inside.
And while I keep my life like this
I'll be always looking for something.
Nobody can even imagine
What's going on inside of me.
They are all clueless
They are all so full of themselves
They can't see through my eyes
And I'm really tired of doing the same to them
Over and over again...
Would anyone see what I see now?
Would anyone?
sexta-feira, dezembro 19, 2008
quarta-feira, dezembro 17, 2008
Invariavelmente
Vacilo entre as relatividades de mim mesma.
Oscilo inconstantemente.
Pobres dos que tentam decifrar minha alma
Com equações matemáticas
Do certo, nada sei
Mestra das variâncias
Invariavelmente
Padrão estabelecido
Sem simetria espaço-temporal
Decifra-me se és capaz
Sabendo de antemão
Que cada resposta
Traz em si uma interrogação.
Reticências de ilusão?
Vai saber...
Só sei que do meu caminho
Não tenho pista de onde me levará
Apenas sigo os ventos brandos
Nossas almas
Quando nossas almas
Se desapegarem da paixão de nossos corpos
Iremos nos reencontrar.
Iremos nos olhar
E dentro de todas as mudanças que veremos um no outro,
simplesmente nos reconheceremos.
E com um forte abraço fecharemos um ciclo de nossas vidas
e selaremos o início de uma nova jornada.
Onde nossas almas serão livres de qualquer julgamento.
Onde nossas almas falarão diretamente uma com a outra,
Sem mais precisar dos beijos e abraços apaixonados de nossos corpos.
Onde simplesmente nos aceitaremos e nos entenderemos por inteiro,
Como nunca pode acontecer antes.
Esse dia vai chegar.
E nós saberemos exatamente quando.
sexta-feira, dezembro 05, 2008
Tudo o que sou
Tudo o que sou
O que me pertence
Vem como água de cachoeira
Se joga do alto, morro abaixo
Se expande, confunde, mistura
E se perde rio adiante.
Tudo que sou
O que me pertence
Vem, cresce, projeta
Vive infinitos, eternos minutos
Vive tudo, sobe, desce
E se perde no próximo pensamento
Tudo que sou
O que me pertence
Vem de repente
Me toma por inteiro
Reformula todo o pré-existente
E se perde num estalar de dedo
Tudo que sou
O que consigo ser
Sem lá muitas escolhas
É essa eterna inconstância
É esse achar e perder
É esse vendaval alucinante...
Era ser oceano de águas mornas e profundas
Banhado por sol de fim de tarde
Num eterno ir e vir suave
De ondas brandas de beira de praia.
E das cantigas das águas ao som do vento.